“A estória que ouvistes é verdadeira...
Mas, deves aprender seu sentido real, velado por símbolos... As montanhas, são os sábios; as ervas, milagrosas, as tuas palavras... Os ‘mortos’ são os ignorantes; os sábios transformam a mente dos ignorantes, com seus conceitos ‘indescifráveis’, como se estivessem ressuscitando os mortos.
A sabedoria dá imortalidade aos que a possuem e que, sabiamente, a transmitem aos outros...”.
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Estórias têm símbolos e estes são parte da existência humana... Na sua interpretação assimilamos a realidade e essa asserção pode ser (sabiamente?) interpretada, para dizer: - “Construímos a nossa própria realidade, pessoal; transferível, na absorção de valores éticos e, quem sabe, morais”.

A Fábula e depois os Contos de Fadas são modalidades, na História da Literatura, que procederam à conversão de personagens ‘não humanos’, mas antropomorfizados, em símbolos de vivências com profunda interioridade, pessoal. Nelas, formas surpreendentes em textos repletos de belos valores e preceitos, éticos.
Moral da estória? ...
Até os mais distraídos já puderam notar, que entre muitas curiosidades deste nosso tempo caótico (no pior sentido do χάος, porque mesmo ali havia ordem), ‘dinamizado’ pela cultura ‘cibernética’ (mecânica e vazia, de fin-de-siècles) e de outros ciclos, vem-se sobressaindo a crescente onda de interesse, renovado, pela literatura alimentada pelo sobrenatural; nos mistérios da Vida...
Nas forças, ‘ocultas’.
No rastro - inebriante, desses temas, também voltamos aos príncipes e aos feiticeiros; cavaleiros andantes e mágicos mestres.
Eles estão de volta, com força.
Que bom!
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Os Contos de Fadas, apesar do nome, nem sempre se caracterizam pela presença de alguma delas, mas sim por conter, como parte essencial da narrativa, um drama existencial - de certa forma sutil, intocável. Em outras palavras: a ‘auto-realização’ de um personagem, ou o seu crescimento pessoal - expansão interior, aparece como o principal aspecto de um relato, quase sempre encantador.
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É assim, encantadoramente, que as sagas, as lendas e os mitos também deixaram de ser vistos como ‘entretenimento infantil’, ou bobagens (como se o que as crianças vivem fosse assim... - Ah! Que saudades de minhas ‘bobagens’ infantis) e vêm sendo redescobertos como autênticas fontes de conhecimento do homem e de seu, verdadeiro, lugar em um mundo melhor.
Os feitos, as glórias e a grandeza, ou mesmo as provas, os obstáculos e as contendas pelos quais os personagens centrais, dos Contos de Fadas, passam, configuram rituais iniciáticos que descrevem a passagem, de um momento existencial para outro, e que vêm sendo mantidos, sem mudanças substanciais, ao longo da História e transmitidos de geração em geração, por estórias.
Ainda bem!

O rei e a princesa; o mágico e a bruxa, ou o animal que ronda e que ajuda, estão sempre presentes... Você não conhece alguns? Eu sim... Todos camuflados por um magnífico arcabouço, com um poder indiscutível, pelo qual os valores a que se referem são eternizados; como a luta entre o bem e o mal, na distinção entre o que é belo e o que não é; o que nos enternece o coração e o que repudiamos na mente, com veemência...
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Refletem os traços humanos mais gerais e utilizam símbolos universais que nos permitem, novamente, poder escolher e selecionar; aceitar, ou negligenciar; interpretando-os, sabiamente sim, de forma congruente a um novo estágio de desenvolvimento físico, intelectual e psicológico... A alma, de novo, é atingida por sentimentos puros.
Graças, a Deus!
Isto tudo vem atravessando os séculos e encantando os povos, das mais diferentes culturas; sem dúvida, porque, para além da sedução das mil e uma noites da Pérsia existe um importante eixo vital, em torno do qual se desenrolam paixões: as relações homem/mulher, envolvendo o amor; a vida e a morte...
As forças, bipolares, em equilíbrio, que imortalizaram Sherazade - شهرزاد, símbolo da mulher perfeita que, além da deslumbrante beleza, era culta e falava - com propriedade, o que tem que ser dito.
Era uma vez...
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“... Nos aposentos do rei Xariar - شهريار , Sherazade pede para se despedir de sua irmã, Duniazade. No meio da conversa, como haviam combinado antes, Duniazade pede que a irmã lhe conte uma estória. Sherazade, que tinha lido livros e escritos de toda a espécie, conta uma história que, como havia planejado, cativa a atenção do rei... Ele pára e escuta a narrativa, escondido... Mas, ela interrompe a narrativa para a concluir apenas na noite seguinte. Curioso para saber o final da estória, o rei não a mata - como fazia com todas as suas outras mulheres depois de possuí-las. Nas noites seguintes, literalmente excitado com a narrativa, o rei pede novas estórias... E assim ele mantém Sherazade viva até que, depois de mil e uma noites e três filhos, o rei, entretido e moralmente elevado pelas estórias, desiste de matá-la e faz dela sua rainha”.
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Excelente maneira de podermos entender um stratum, fabuloso; cultural, sim, pois seriam expressões dos processos psíquicos do inconsciente coletivo: na alma do povo simples, também, e das pessoas comuns, mais do que tudo. Através dos Contos de Fadas, podemos estudar as mais básicas estruturas de comportamento e os aspectos de toda uma civilização, que pode ser extraordinária.
O material simbólico contido nas escrituras, age como um processo - de aprendizagem e pode ser utilizado para propiciar a construção dos sistemas lógicos de pensamento: encorajadores, quiçá para sempre.
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Os protagonistas dos Contos de Fadas são pessoas muito parecidas conosco... Quando identificamos um, como João, em “João & Maria”, fica claro que o uso de nomes bem comuns os torna genéricos, valendo para qualquer menino ou menina, que jamais deveríamos deixar de ser...
Maravilhosa literatura!
Que está profundamente ligada ao mundo dos símbolos; mitos e arquétipos. É neles, ou por meio deles, que essa magia é engendrada e se transmite aos homens através dos milênios... Em uma linguagem que se expressa por, adorável, comunicação...
Contendo todas as possibilidades da vida, mostrando que ela pode ser: um Conto de Fadas.
Caio Eduardo Ferreira do Amaral
Semiologia, da vida.